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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Já era quase dia e as coisas não mudariam.
Abriu um vídeo pornô.
Segundos depois, não se conteve e teve uma crise de riso.
Naquele momento, coitado, percebeu que mais nada na sua vida fazia sentido.

terça-feira, 20 de março de 2012

dos rascunhos// quase cena//

Abre a cena com ele ali, afundado em uma poltrona. Ela, de fora.

Ela: Falta apenas quinze minutos, Lívio.

Ele: Não me importo.

Ela: Não acredito nisso! Você ainda está aqui, assim!

Ele: ...

Ela: Até quando, Lívio? Até quando?

Ele: Não sei.

Ela: O que é que você está esperando! Vá se vestir.

Ele: Não tenho vontade.

Ela: Vontade?

Ele: É. Não tenho nenhuma.

Ela: Agora não é hora.

Ele: É que fiz uma descoberta.

Ela: Agora não é hora.

Ele: Uma descoberta importante...

Ela: Ligou para Geórgia? Geórgia não perderia isso aqui por nada deste mundo. Você sabe como é Geórgia!

Ele: Gostaria de lhe contar...

Ela: Geórgia é uma daquelas sentimentalóides que se ofende por não ser lembrada. E eu não quero que Geórgia fique ofendida comigo. Não agora. Não que eu faça muita questão dela, mas sabe como são essas coisas. Não quero que ninguém mais se ofenda comigo. Isso serve também para Tereza.

Ele: Acho que agora sim entendi tudo. Esta minha descoberta me fez entender tudo. Nesta altura da vida, veja só, a coisa toda se desvenda para mim assim, simples, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Ela: E Tereza já está sabendo?

Ele: Acredito que sim. Todos já sabem.

Ela: E você continua aqui, assim, sem se vestir? Se Tereza já sabe, logo estará por aí.

Ele: E você sabia?

Ela: Lívio, agora não é hora. Sabe quanto tempo temos?

Ele: Eu sou um homem ridículo!

Ela: Menos de quinze minutos, é certo.

Ele: Deus do céu! Como é bom dizer isso: Eu sou um homem ridículo!

Ela: Se Tereza já sabe, em pouco tempo está aqui. Você sabe muito bem como é a Tereza.

Ele: Isso te incomoda?

Ela: Quero que você se vista.

Ele: Eu sou um homem ridículo.

Ela: Coloque aquele seu terno preto que sua mãe lhe deu. Aquele, que pertencia ao seu pai.

Ele: Isso te incomoda?

Ela: Já estava separado em cima da cama desde ontem.

Ele: Você casada a vida inteira com um homem ridículo!

Ela: Você sabe: se eu fosse guiada pelo meu ponto de vista estético, eu o pegava e o rasgava com minhas próprias mãos.

Ele: Por que não fez?

Ela: Não sei. Mas agora não interessa. Passou. Até acho que aquele terno preto, ridículo, fedendo a naftalina, lhe cai bem.

Ele: Quem diria!

Ela: Pois é, meu querido.

Ele: Você era tão linda, Áurea.

Ela: Ontem...

Ele: Tão linda.

Ela: Quando eu vi aquele pedaço de pano velho em cima da cama...

Ele: O que é que passou pela sua cabeça?

Ela: “Isso só pode ser provocação!” eu pensei.

Ele: Não deve ter sido amor...

Ela: Mas aí, me acostumei.

Ele: Nunca foi amor.

Ela: Sentei na cama e fiquei olhando aquele terno preto, dado pela sua mãe, que era do seu pai e pensei: é assim. As coisas serão sempre assim.

Ele: Vou colocar uma música.../

Ela: Da senhora Betânia você não se esqueceu, esqueceu?

Ele: Uma música triste para deixar tudo mais triste.

Ela: Você sempre se esquece da Betânia!

Ele: Alguma sugestão?

Ela: Que implicância com a Betânia você tem, Lívio.

Ele: Uma sugestão, Áurea.

Ela: O que é que você está fazendo Lívio?

Ele: Uma música triste para deixar tudo mais triste.

Uma música triste para deixar tudo mais triste.

Ela: Sabe quanto tempo falta?

Ele: Geórgia disse que vem. Mamãe disse que ela não perde isso por nada neste mundo.

Ela: Você sempre sendo o motivo dos nossos atrasos, Lívio. Vá se vestir. Tereza já deve estar para chegar.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Agora que estou aqui, como uma atriz que entra em cena sem ter ensaiado, me ocorre que eu deveria ter pensado em alguma coisa, escolhido melhor as palavras e até ensaiado algumas vezes de frente para o espelho caso tivesse sido possível. Mas você sabe como são essas coisas. Ou pelo menos tem cara de saber. Como é mesmo que se diz? Ímpeto. É essa a palavra. Ímpeto. Sempre gostei da sonoridade desta palavra – ímpeto. Foi assim. A vida nem estava assim, como se diz, complicada. Não, não estava. No bar, era só eu me cuidar, me esquivar dos bêbados e servir-lhes o que me pedissem. Bastava. Era simples. Desde que não me colocassem a mão e, no banheiro, acertassem o buraco daquele vaso, me daria por satisfeita. Iria vivendo. Sobrevivendo. E isso bastava. E no fundo é o que todo mundo quer. É o que eu queria. Ficar por ali, como sempre estive. Os copos eu até gostava de lavar e eram muitos. Eu não me importava. Nem de lavar os copos e tão pouco esfregar o chão. Mas o banheiro – pior: o vaso! Ainda faltava aquele objeto sujo. Mais sujo do que o normal. E meu coração saltava pela boca. Não pelo vaso, mas por aquele cartão, no bolso do meu avental. Nome, sobrenome, endereço e telefone fixados. Ímpeto. Sempre achei o som desta palavra muito bonito sem saber que na verdade isso significava deixar aquele vaso como estava, enfiar toda minha vida nesta mala, pegar o primeiro trem e... Você sabe como são essas coisas. Ou pelo menos tem cara de saber.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

#ficaadica express

domingo, 18 de setembro de 2011

lá fora o mundo não deixa de acontecer, pintado em tons de cinza, orquestrado por berros e buzinas e um guarda desesperado que tenta rearranjar o trânsito local. aqui dentro, a gente combina umas cores de pimentão na salada e ensaia nossa felicidade.

domingo, 11 de setembro de 2011

logo pela manhã meu superego virou pra mim, rindo feito um idiota e me disse:
-- Carissímo: você está, com perdão da palavra, fudido!
Me deu um beijo estalado e saiu.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

rascunho aberto

A atriz se dirige ao centro do palco.

Eu também odeio isso, podem acreditar. Odeio essa coisa do ator vir até o centro do palco e em um microfone ficar falando sobre suas experiências pessoais, dando depoimento, lição de vida... Detesto quando confundem isso aqui com análise. (respira fundo) Mas hoje eu estou precisando falar.. Olha, se vocês querem um conselho útil do eu tenho um: não se apaixonem por dramaturgos. Não mesmo! É idiotice. Eu já fui menos idiota do que isso. Ele pensa que não precisa de mim, mas se não sou eu pra dar as porcarias dos textos dele... Ora, porque ele não é nenhum Tcheckov, Beckett ou Grace Passô. Se não sou eu aqui pra falar essa bobajada toda, coitado!

desde sua partida

Houve um tempo de calmaria. De quietude, suspiros, contemplação, sorrisos: nunca disse, mas desconfiava que isso podia ser amor. Hoje o mar está agitado. “Conte sete estrelas no céu à noite e sonhará comigo”. Estremeci. Foi sussurrado, ainda me lembro. Tímido, ao pé do ouvido: “Conte sete estrelas no céu à noite e sonhará comigo”.

O mar estava bravo, as ondas altas, o tempo fechado. Sim, havia uma tempestade! Uma tempestade horrível. Ainda não era noite porque o sino continuava imóvel na torre da igreja. “Conte sete estrelas no céu a noite e sonhará comigo”. Foi isso que ele me disse na noite em que nós nos conhecemos. Usava um paletó de quatro botões e já faz tanto tempo! Os pequenos já não são cabem no afago do meu colo e... Hoje eu arrumei nosso quarto. Troquei o lençol da nossa cama, retirei o pó dos nossos móveis, abri as janelas para que o ar circulasse, retirei todas suas coisas de dentro do guarda-roupa e as organizei novamente. Você deve estar próximo...! Quem sabe não se arrependeu? Caiu em si...Eu não me conformo com sua partida! Foi o meu cabelo? O jeito que eu arrumava a cama? Olha aqui, eu faço tudo de outro jeito. O meu café não era tão forte? Talvez a minha voz...? Você nunca gostou das minhas músicas... “Conte sete estrelas no céu a noite e sonhará comigo” Pra quê? É em sonho que eu vou viver a minha vida? E eu, que sou de carne e osso? E eu que sou lágrimas e arrepios? E eu que sou saudade? E eu?