--Ei, você!

Ela não se dá conta de que estão chamando-a. Aguarda, ansiosa, a mala despontar na esteira.
-- Moça!
Ele se aproxima, ofegante.
-- Você!
Ela se vira para o lado.
-- Um minuto!
Está ainda tentando retomar o ritmo de sua respiração.
-- Pensei que tinha te perdido!
-- Desculpe?!
-- Me dá pelo menos o número do seu telefone.
-- Acho que você está me confundindo.
-- Como?
-- Acho que você está enganado.
-- Eu?
-- Sim.
Ela ri da confusão dele.
-- Claro que não!
Ele a encara.
-- Achei que tínhamos um elo agora.
-- Elo?
A ansiedade dela torna-se irritação. A esteira não mais traz bagagens.
-- Elo sim!
-- O senhor é maluco?
-- Ou a senhora que tem a memória curta?
-- Deixa eu te falar uma coisa: eu viajei doze horas, estou exausta, com fome e acabo de perceber que sem a mala também. Então dá pro senhor se afastar? Tentar ser um pouco mais conveniente?
-- Me admira a senhora estar exausta. Dormiu a viagem inteira.
-- Que?
-- Dormiu a viagem inteira, senhora. E no meu ombro! Estava ao seu lado, dentro do avião.
--Ah-oh! Desculpe-me. É que...eu...tomo remédios e acabo...apagando! Durmo rápido. É...
-- Não tem o que se desculpar
Ela falava rápido, embaraçada..
-- Então: tá tudo certo, não é?
-- É sim!
-- ...
-- ...
-- ...
-- ...
-- Obrigada pelo ombro!
-- Não há de que.
Estranho aquele sujeito.
Alto, grisalho. Um sorriso bobo espalhado na boca. Olhos vidrados na mulher ao seu lado. Voz suave.
-- Já que não temos elo, até...
-- Até!
Ele se vira e parte.
Ela o observa. A distância vai aumentando. Olha novamente para esteira: em vão! Bagagem extraviada. Não tem sorte. Toda vez é assim!

Ele caminha pelo saguão com sua pequena bagagem de mão.
--Ei, você!
Não se dá conta de que o chamam.
-- EI!
Ela o alcança.
-- Ora!
-- Um minuto.
Ela respira ofegante.
-- Cigarro!
-- Parei!
-- Tô tentando.
-- ...
-- ...
-- Está bem?
-- Um pouco melhor.
-- Precisa de algo?
-- Eu ronquei?
-- O que?
-- Ronquei?
-- Não!
-- E babar? Babei?
-- Também não.
-- Ufa!
--...
-- Era isso!
-- Ok.
-- Ok.
-- Passar bem!
-- Passar bem.

Um sorriso dele. Um sorriso dela.

Novamente ela ali, sozinha, no meio da multidão que circula em busca de embarques e desembarques.

"Tenho que parar com estes remédios!"

-- Eu dormiria todas as noites da minha vida com você!
Era com ela que ele estava falando. Na verdade, gritando, do outro lado do saguão do aeroporto.
-- O que?
E novamente ele se aproxima dela.
-- Aceita um café?
-- Tenho uma mala extraviada pra encontrar.
-- E dormir comigo a vida inteira?
-- Depois que encontrar a minha mala.
-- Ficarei aguardando.
-- Tem meu telefone.
-- Eu ligo.
-- Espero.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Fissura por suveniers

-- Sério que você vai conhecer à Patagônia?

-- Hurrum!
-- Nossa!
-- É!
-- Me traz um chaveiro?
-- Trago!
-- É que eu coleciono.
-- Sei.
-- Aqui...
-- Oi?
-- Se der, traz neve também?
-- ...
-- Pra uma coleção nova, sabe?
--...

...

sábado, 28 de novembro de 2009

Fim de papo

-- Por que você não se mata?
-- Não quero ser uma solução dramatúrgica fácil.
-- Que?
-- Vão escrever sobre mim, fique certa. E no meios de todos estes nós terão que prosseguir com a minha personagem que optou por testemunhar o que há depois disso tudo...
-- Disso tudo o que?
-- Disso tudo nós.
Pausa. Não há vozes. O espaço deixado por elas é preenchido com o som das gotas grossas que batem na janela.Um cigarro queimando entre os dedos dela, aqui dentro.
-- Não vai vender: Vai ser chato, cheio de voltas, prolongamentos, melancólico, inexpressivo.
-- Você acha?
Uma tragada no cigarro e...
-- Uma grande bobagem.
-- Há quem goste de bobagens imortalizadas.
-- Eu não gosto.
-- E por que então não foi embora ainda?
Silêncio. O cigarro está todo consumido. As mãos dela ficam vazias.
-- Faz parte de um plano: fico aqui, prolongando minha participação nesta bobagem e garanto meu futuro: me aposento e vivo dos royoltes que irão ser meus, por direito. Nada de amor, apenas questão de conveniência.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Estúpido diário

...eu mudei! Nossa Senhora da Constatação óbvia, como não reparei antes?

Foi preciso que minha cadela me estranhasse para eu perceber que aquele reflexo no espelho não era mais aquilo que há tanto tempo eu conhecia.

Minha cachorra disparou a latir quando me viu, dia desses, entrando em casa. Não era um latido de alegria. Era o mesmo que ela usa para sinalizar desconhecidos por perto. Caminhei pela casa, com aquele ruído lá no terreiro. Passeei pelos cômodos como um fantasma. A televisão estava ligada, sintonizada em um filme qualquer. Os que estavam por ali não tinham olhos pra mim, somente para as seqüências de imagens. Não era notado. Santo alívio, Santa angústia: juntos, brincando comigo. Entrei em meu quarto, tirei minha roupa, deitei no chão e fixei os meus olhos no teto.

Me tornei um fantasma. Vivo ainda! Que engraçado.
Ri por dentro.
Por isso não enxerguei mudança alguma no meu reflexo do espelho: fantasmas nada refletem, tolinho.

-

E viva a depressão dos sábados a tarde, pintados de cinza.

sábado, 3 de outubro de 2009

Manipulação um escambau, apenas influência

Ele tinha este costume: puxar conversa com as prostitutas com quem se deitava. Não sabia porquê, mas gostava de escutá-las.
-- Você tem filhos? -- ele perguntou.
-- Tenho uma menina linda. Capitu...
-- Gosta de Dom Casmuro?
-- Que?
-- O livro da história da Capitu.
-- Livro? Não! Foi por causa daquela menina daquela novela, lembra? A que fazia papel de puta chique, no Leblon, e depois fez a Jade, sabe? Achei digna!

sábado, 19 de setembro de 2009

Seu bônus é válido até às 0h de...

-- Eu só queria que você soubesse...
Tempo.
-- Fala...
-- Me falta coragem.
-- Por que?
-- É maior do que eu.
-- Você é um clichê, sabia?
-- Vou falar... é...
-- Estou preparada...
-- Sério?
-- Não consigo nem me lembrar quanto tempo que venho aguardando por isso...
-- Isso me deixa tão mais tranquilo!
-- Pode falar então?
-- Agora sim.
-- Estou ouvindo...
-- Eu...
Um, dois, três...dez segundos! Silêncio do outro lado da linha. Fim da ligação.
Ela: Covarde!
Ele: Merda de bônus!

domingo, 13 de setembro de 2009

Quando brinquei de fazer cinema, deu nisso...

video

domingo, 6 de setembro de 2009

Repi bardei!



...E esta coisa de teconlogia, contemporaneidade, vida virtual, cyber espaços e tudo mais faz a gente se apegar a cada coisa... até com o aniversário do blog!




... nem meu namoro mais duradouro tem tanto tempo! Dois anos é coisa pra burro, né não?

(NÃO! É coisa para o meu blog.)

sábado, 5 de setembro de 2009

 
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